sexta-feira, 22 de julho de 2016

Ai que causos eu tenho da Bahia – Um



Inverno de 2013 - Crédito: Foto minha para selar a amizade

Era mais um dia de inverno em Salvador, ao pé do Elevador Lacerda a espera de um buzu que a saga começa, entre arrochas e lambadas, perdas e chegadas de ônibus, corre-corre coletivo, turistas lagartixando e baianos calorentos. Porque se para Adriana Calcanhoto o inverno no Leblon é glacial, na Bahia ele com certeza é infernal.

É um perfume espanta nigrinha que incomoda (quem não é baiano entenda-se como um perfume que chega antes do indivíduo que o usa, forte e quase sempre enjoado), é a gravação do copo de água a 30 centavos, quebrando os brodi que vendem nos ônibus, é o tio que rouba sua vaga no sombreiro da vendedora ambulante, pedindo uma piriguete gelada após você perder o primeiro ônibus que irá cortar metade da cidade. E lá se vão Ribeiras, Massarandubas, transportes clandestinos, ônibus intermunicipal, sua cabeça vai e vem, é um rabixo de olho na esquina, é o gatinho que passa, admira o cabelo de um, questiona a inocência do turista e suas vestimentas, é a palavra cruzada quatro a dois reais. 

Pronto, o ônibus chegou, corre porque ele parou metros de distância, lá no início do ponto, onde o primeiro havia parado e você perdeu. Ele está cheio, na espera para entrar o pé queima no asfalto quente de meio-dia, a fome já começa a aparecer, lhe falta dinheiro. E lá vêm os baleiros, oferecem pãezinhos, nécessaire, água e picolé, tudo ao mesmo tempo e agora, o lamento é lembrar que quando pode eles não vem, logo hoje na penúria, eles brotam aos milhões. 

Chega metade do caminho, você já aceitou que irá bronzear metade da perna e do braço que é banhado pelo sol, já comeu metade do sequilho que levava na bolsa por precaução, seu acompanhante desceu no ponto anterior e agora é rezar para chegar logo em casa. Num devaneio de viagem, por essa ser sempre longa, você se imagina na praia, naquele mesmo sol que você condena por estar vestida demais, com calor de mais e brisa de menos. 

Em casa você se conforma com a viagem feita, aceita que ela foi em vão já que nada foi comprado. Repassa a história para os amigos e ri, porque chorar não dá mais. 


*Essa história vai para minha amiga Géssica, hoje residindo em Recife, por me fazer acreditar que sou boa em causos.  

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Éramos quatro e só ele sabia



 Crédito: Empodere duas mulheres

Quando ele levantou a voz e proferiu um “você está psicótica”, ela repensou tudo que já tinha descoberto até ali. A deslealdade não era o único incômodo, ele pintou uma mulher que ela jamais fora, ele buscava redenção e plantou uma semente de loucura.

Os dias foram passando, ela buscava forças, pois terminará a relação de anos. Ao se olhar no espelho não via qualquer determinação para se reerguer, passada uma semana, ele a convencia de que ambos se dependiam, a peleja interna sedia, ela para lá corria e nos seus braços mais uma vez de amor ia morrer.

Apesar do afeto doente, eles transitavam entre a gente, viviam a trocar sorrisos e espalhar sementes de amores sem amarras. Mas na verdade, ele orbitava em volta delas, era a mesma história, a mesma psicose, as mesmas cenas de romance destemperado. Sim, eram elas num temeroso plural, no qual sediam, doavam suas vidas e energias. E antes mesmo do fim saíam secas, eram terras arrasadas.

Ele no mesmo ambiente ficou, vergonha não passou e ainda ousou questionar o porquê de tamanho rancor. Minhas irmãs resistam, não vale viver nessa vida com uns restos de amor, elas sempre souberam, era mesmo um ator e a farsa findou. 

Passaram-se semanas, entre gritos, risadas e bebidas. Hoje elas se cobram e se cuidam, juntas lutam pelo mesmo amor, o próprio, porque até isso ele tirou.