Por mais de 20 anos fui moradora
de um dos maiores bairros periféricos de Salvador, passei minha infância e
início da vida adulta no Nordeste de Amaralina. Minha rua sempre foi muito
unida, tínhamos festas coletivas no final de ano, as crianças brincavam na rua,
dividíamos bicicletas, meninos e meninas brincavam de futebol. Foi uma época
feliz, vivia livre e descalça, gosto que trago até hoje.
Na adolescência por mais que meu
bairro aparecesse nas páginas policiais, minha vida nunca havia sido atingida
diretamente, os criminosos da região viviam de assaltar bancos no interior da
Bahia, não existia o livre comércio de drogas, as crianças permaneciam preservadas.
Nessa época, começou a existir a famosa rixa entre os bairros, mesmo que muitos
não soubessem onde começava um e terminava outro. Era o boato de que uma menina
da Santa Cruz havia apanhado no Vale das Pedrinhas, que um menino da Chapada
havia sido “escarrerado” do Areal e por ai vai, mas eram boatos, quem garante.
Até que num dia qualquer, às 19h,
na cozinha de casa, ouvimos diversos tiros. Nossa primeira reação foi correr para
fechar as portas e nos escondermos no cômodo mais protegido possível. Meu pai
não estava em casa, ligamos e pedimos que ele não voltasse, não era seguro,
havia um homem morto três casas antes da minha. Desde então nada mais foi
igual, sair de casa só não era mais difícil que voltar. Mesmo às 13h, tínhamos que
ligar para saber se estava tranquilo para chegar em casa e ainda assim não era
certeza, conto pelo menos umas 5 pessoas que morreram de bala perdida, nesse
intervalo de inferno vivido pelo bairro naquele ano de 2007, época em que me
mudei porque ninguém mais conseguia viver.
Entretanto, a minha infância
ficou naquelas ruas, deixei amigos de décadas, minhas diversas marcas de queda
ficaram naqueles becos, minha fé no outro morreu um pouquinho em 2007, a
realidade estourou a porta e me arrancou de casa numa madrugada de outubro.
Esse relato vem após a comparação
do governador Rui Costa, sobre os policiais serem artilheiros fazendo gols, são
vidas derrubadas. Conviver com a violência nunca me fez aceitar que a solução é
retirar a vida do outro, o Estado não pode legitimar uma ação que combate, isso
vai de encontro a tudo que acredito do viver em sociedade.
Ler o que acontece na região do
Cabula é reviver todas as angustias que vive no Nordeste e que ainda hoje vivem
alguns amigos, pois quando cai um dono da boca de fumo ou um chefe de quadrilha,
eles têm 100 outros para substituir, é como um videogame com vidas infinitas.
Sei que deve ser muito difícil explicar para alguém que perdeu o ente querido
por está no lugar errado na hora errada, mas na periferia de Salvador, 99% estão
assim, na linha de fogo entre o crime e a “lei” do Estado.
Por fim, o que sobra é a incerteza
do que é a justiça e a lei do mais forte, triste 2015!

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