sábado, 7 de fevereiro de 2015

Nordeste, Cabula, subúrbio... Salvador, a terra dos artilheiros!





Por mais de 20 anos fui moradora de um dos maiores bairros periféricos de Salvador, passei minha infância e início da vida adulta no Nordeste de Amaralina. Minha rua sempre foi muito unida, tínhamos festas coletivas no final de ano, as crianças brincavam na rua, dividíamos bicicletas, meninos e meninas brincavam de futebol. Foi uma época feliz, vivia livre e descalça, gosto que trago até hoje.

Na adolescência por mais que meu bairro aparecesse nas páginas policiais, minha vida nunca havia sido atingida diretamente, os criminosos da região viviam de assaltar bancos no interior da Bahia, não existia o livre comércio de drogas, as crianças permaneciam preservadas. Nessa época, começou a existir a famosa rixa entre os bairros, mesmo que muitos não soubessem onde começava um e terminava outro. Era o boato de que uma menina da Santa Cruz havia apanhado no Vale das Pedrinhas, que um menino da Chapada havia sido “escarrerado” do Areal e por ai vai, mas eram boatos, quem garante.

Até que num dia qualquer, às 19h, na cozinha de casa, ouvimos diversos tiros. Nossa primeira reação foi correr para fechar as portas e nos escondermos no cômodo mais protegido possível. Meu pai não estava em casa, ligamos e pedimos que ele não voltasse, não era seguro, havia um homem morto três casas antes da minha. Desde então nada mais foi igual, sair de casa só não era mais difícil que voltar. Mesmo às 13h, tínhamos que ligar para saber se estava tranquilo para chegar em casa e ainda assim não era certeza, conto pelo menos umas 5 pessoas que morreram de bala perdida, nesse intervalo de inferno vivido pelo bairro naquele ano de 2007, época em que me mudei porque ninguém mais conseguia viver.

Entretanto, a minha infância ficou naquelas ruas, deixei amigos de décadas, minhas diversas marcas de queda ficaram naqueles becos, minha fé no outro morreu um pouquinho em 2007, a realidade estourou a porta e me arrancou de casa numa madrugada de outubro. 

Esse relato vem após a comparação do governador Rui Costa, sobre os policiais serem artilheiros fazendo gols, são vidas derrubadas. Conviver com a violência nunca me fez aceitar que a solução é retirar a vida do outro, o Estado não pode legitimar uma ação que combate, isso vai de encontro a tudo que acredito do viver em sociedade.

Ler o que acontece na região do Cabula é reviver todas as angustias que vive no Nordeste e que ainda hoje vivem alguns amigos, pois quando cai um dono da boca de fumo ou um chefe de quadrilha, eles têm 100 outros para substituir, é como um videogame com vidas infinitas. Sei que deve ser muito difícil explicar para alguém que perdeu o ente querido por está no lugar errado na hora errada, mas na periferia de Salvador, 99% estão assim, na linha de fogo entre o crime e a “lei” do Estado.

Por fim, o que sobra é a incerteza do que é a justiça e a lei do mais forte, triste 2015!

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