segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Seguindo a norma, entendendo os privilégios


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Sempre que converso com minhas amigas saio com uma nova palheta de cores sobre relacionamentos, cuidado, feminismo, sororidade e respeito. É uma troca inexplicável e que só é possível ser feita acompanhada, em grupo, com mulheres e que estejam dispostas a lhe ouvir.

Há um tempo sempre que as pessoas falam sobre corpo, suas formas e tamanhos, eu simplesmente afirmava não me achar magra e nem gorda, mas normal. Após um tempo repetindo esse equívoco, parei para refletir o real sentido de me achar normal, porque se o meu padrão é normal, os demais são anormais? Na verdade, sempre tive problemas em lidar com o meu corpo, mas não era um lidar porque ele tem estrias e celulites ou porque já vesti calça tamanho 42. Era um problema crônico em aceitar que querendo ou não, o meu corpo representava um privilégio para uma pessoa que nunca foi de dietas, que nunca comeu salada e só depois da gastrite cortou algumas coisas que fazem mal, por não suportava mais a dor.

Na adolescência meu corpo se desenvolveu muito cedo, peitos grandes, quadril largo, mas as roupas eram tão largas, meu corpo sempre tão coberto de bermudas taktel até o joelho que uma gordura aqui e uma dobrinha ali jamais me incomodou. Na faculdade até usei uns short e saias acima do joelho, mas a roupa continuou não sendo questão, M sempre me deixou confortável e no calor da soterópolis um short sempre caia bem, naquela UFBA sem ar condicionado.

E só perto dos quase 30 que passei a me olhar no espelho e indagar aquela barriguinha em volta do umbigo, aquele braço não tão definido, aquela bunda que tá ali e dá para o gasto e foi nesse momento que o termo normal chegou a minha vida de feminista que lida bem com o corpo, mas não tão bem assim. Foram cobranças tardias, vontade de usar aqueles vestidos da moda que deixa toda mulher elegante, e lá me vem a moda das listras, mas as horizontais não, elas te engordam. E eu  que sempre fui a moça do poá, cedi as Kardashian e suas saias coladas acima do umbigo, que porra, como aquilo é lindo e elegante.

Entre idas e vindas, festas e leggins, sempre rolava aquela conversa de barrigas chapadas, até porque as Pugliesis estão ai por algum motivo, musas fitness estão na moda e em nossas vidas. E sempre que a conversava rola saia à belíssima frase do “não, mas eu sou normal”. Normal para quem cara não tão pálida!

O que eu definia como normal era uma mulher que não malhava, se exercitava as vezes (dançando) e que ainda assim cabia no seu M confortavelmente, não tinha nada pulando fora da roupa e que quando passou a usar cropped ( porque sim, eu cai nessa dos três dedos de barriga de fora) se sentia nua. E quando eu fui repensar meus conceitos de normal para definir meu corpo comecei a me sentir ridícula, como eu posso esbanjar meus privilégios de ser “padrão” e levar aquilo como norma de vida.

 O que é normal: O que não é diferente. O que é igual à maioria que esta ao seu redor, não se destaca. Algo comum.

Buscando o significado de normal entendi que na verdade o meu problema maior é minha busca por ser comum, eu quero ser reconhecida por minhas qualidades, mas me recuso a acreditar que estar dentro de um padrão estético seja qualidade, as vezes é genética, uma questão de saúde ou até vontade de se encaixar ali, mas isso nunca deve ser visto como norma, essa estética que valoriza um corpo que não é nosso.


Mas voltando a discussão com zamigas o que ficou era, tudo que você quiser o cara lá de cima vai lhe dar, já dizia a Xuxa, mas será que você está disposto a pagar o preço de ser padrão?   

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