quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Carta para irmãs de cacheadas em transição – Sororidade

 Ilustração feita com exclusividade por Thais Cortez (a.k.a. Emily) para o site Ovelha


Olá irmã de Mis, tudo bem?

Então, não nos conhecemos, não conheço sua história de vida, suas vitórias, seus receios e como você chegou neste planeta. Mas há 8 meses convivo com sua irmã, no início eram cumprimentos educados, evoluímos para identificações e passamos as confidências importantes ou superficiais. Entre danças e caronas, fomos nos reconhecendo, aceitando algumas estripulias individuais e até os 300 volts que ela tem na voz quando está feliz ou ansiosa, na verdade, tudo isso junto.

Você pode me dizer que é tudo recente, que a convivência de vocês é bem mais real e concordo, vamos combinar, só de não termos a obrigação dos laços sanguíneos e de não morarmos juntas, tudo isso já facilita nossa vida. Tenho irmã e conheço a dificuldade de se compartilhar espaço, conviver com as intempéries da TPM e nossos demônios pessoais, ainda assim, para a minha irmã tudo, no fim é com ela que poderei contar.

E assim como Mis, a minha irmã passou pela transição capilar, foram muitos anos entre produtos que mudaram a textura do seu cabelo e a fisionomia do seu rosto, tudo porque ela queria que seu cabelo voasse, sabemos como não é fácil ser criança negra no Brasil, o preconceito não libera ninguém. Nos últimos anos, acompanhei a retransformação, o seu incessante desejo de se desvencilhar de uma cultura opressora de mulheres magras, cabelos lisos e femininamente frágeis.

No primeiro momento ela só parou com a química, usou trança para resistir as más línguas, depois caiu na tesoura, cortou um tico e percebeu que o cabelo já não aceitava mais qualquer produto e cortou o restante. Achei lindo, foi libertador e para mim ficou a certeza de sua força e perseverança. Muitos fizeram comentários negativos, preconceituosos e retrógrados, e minha preocupação era sempre reforçar o quanto ela não estava mais presa a um conceito de vida que a impedia de seguir em frente, sem esse “relaxamento” quase que mensal.

E nesse ponto da minha vida conheci sua irmã, guerreira cacheada em transição, com seu maroto rabo de cavalo passando pela vida e transformando gente que se permite tocar. Sou a maior defensora de soltar a juba e atacar de leoa no mundo, mas cada mulher tem seu tempo de empoderamento e não há como forçar. Sei que para quem está de fora é só cabelo, mas lá dentro, no íntimo de cada cacheada em transição, existe uma  mulher REEXISTINDO!

O mundo não nos obriga amar alguém por possuirmos laços sanguíneos, até porque amor não é justificável, mas respeito, ah isso todo mundo gosta e precisa para se sentir gente. E se ligue, pois cacheada só anda em bando, você não precisa transitar para entender que essa luta de liberdade de escolha é de toda mulher, para umas pode começar pelo cabelo, numa outra pelo corpo. Nos aceite, estamos nos mesmo barco, vamos remar.

Ps. O texto também vale para a família da Rainha Vic e seu black ostentação.


Ps². Procurando ilustrações acabei achando o site Ovelha, confiram pois tem bastante texto bacana.  

Ps³. Não quero apontar verdades sobre a vida de ninguém, mas é aquela história, repense antes de sair soltando suas verdades sobre o outro, quase sempre pode ser ofensivo e inconveniente.  

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