Ilustração feita com exclusividade por Thais Cortez (a.k.a. Emily) para o site Ovelha
Olá irmã de Mis, tudo bem?
Então, não nos conhecemos, não
conheço sua história de vida, suas vitórias, seus receios e como você chegou
neste planeta. Mas há 8 meses convivo com sua irmã, no início eram cumprimentos
educados, evoluímos para identificações e passamos as confidências importantes
ou superficiais. Entre danças e caronas, fomos nos reconhecendo, aceitando
algumas estripulias individuais e até os 300 volts que ela tem na voz quando está feliz
ou ansiosa, na verdade, tudo isso junto.
Você pode me dizer que é tudo recente,
que a convivência de vocês é bem mais real e concordo, vamos combinar, só de
não termos a obrigação dos laços sanguíneos e de não morarmos juntas, tudo isso
já facilita nossa vida. Tenho irmã e conheço a dificuldade de se compartilhar
espaço, conviver com as intempéries da TPM e nossos demônios pessoais, ainda
assim, para a minha irmã tudo, no fim é com ela que poderei contar.
E assim como Mis, a minha irmã
passou pela transição capilar, foram muitos anos entre produtos que mudaram a
textura do seu cabelo e a fisionomia do seu rosto, tudo porque ela queria que
seu cabelo voasse, sabemos como não é fácil ser criança negra no Brasil, o
preconceito não libera ninguém. Nos últimos anos, acompanhei a retransformação,
o seu incessante desejo de se desvencilhar de uma cultura opressora de mulheres
magras, cabelos lisos e femininamente frágeis.
No primeiro momento ela só parou
com a química, usou trança para resistir as más línguas, depois caiu na
tesoura, cortou um tico e percebeu que o cabelo já não aceitava mais qualquer
produto e cortou o restante. Achei lindo, foi libertador e para mim ficou a
certeza de sua força e perseverança. Muitos fizeram comentários negativos,
preconceituosos e retrógrados, e minha preocupação era sempre reforçar o quanto
ela não estava mais presa a um conceito de vida que a impedia de seguir em
frente, sem esse “relaxamento” quase que mensal.
E nesse ponto da minha vida
conheci sua irmã, guerreira cacheada em transição, com seu maroto rabo de
cavalo passando pela vida e transformando gente que se permite tocar. Sou a
maior defensora de soltar a juba e atacar de leoa no mundo, mas cada mulher tem
seu tempo de empoderamento e não há como forçar. Sei que para quem está de fora
é só cabelo, mas lá dentro, no íntimo de cada cacheada em transição, existe
uma mulher REEXISTINDO!
O mundo não nos obriga amar
alguém por possuirmos laços sanguíneos, até porque amor não é justificável, mas
respeito, ah isso todo mundo gosta e precisa para se sentir gente. E se ligue, pois
cacheada só anda em bando, você não precisa transitar para entender que essa
luta de liberdade de escolha é de toda mulher, para umas pode começar pelo
cabelo, numa outra pelo corpo. Nos aceite, estamos nos mesmo barco, vamos
remar.
Ps. O texto também vale para a família
da Rainha Vic e seu black ostentação.
Ps². Procurando ilustrações acabei achando o site Ovelha, confiram pois tem bastante texto bacana.
Ps³. Não quero apontar verdades sobre a vida de ninguém, mas é aquela história, repense antes de sair soltando suas verdades sobre o outro, quase sempre pode ser ofensivo e inconveniente.

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