domingo, 10 de maio de 2020

CARTA PARA OS 30 ANOS

 

A gente vive se preparando para nosso primeiro beijo, a primeira menstruação, a primeira experiência sexual, o primeiro fora/desilusão amorosa, mas ninguém te prepara para envelhecer. Sim gente, estou falando sobre alcançar a terceira idade e de bem com o fato, ninguém te fala sobre as mudanças de perspectivas, sobre suas prioridades, sobre os cabelos brancos, sobre poder ser feliz e recomeçar, porque observe que maravilhoso você ainda está vivo.

Pausa para entender que eu sei não estar na terceira idade, mas eu convivo com várias mulheres que estão, acalmem seus corações e não esvaziem o termo “lugar de fala”.

Ontem uma amiga elogiou a minha tranquilidade de lidar bem após os 30 e meu pensamento/resposta foi “porque isso nunca existiu enquanto uma questão para a minha cabeça”. Só no inicio de 2020, eu descobri o que significava aquele lance de Renato Russo com a música Vinte e Nove, “e aos vinte e nove com o retorno de Saturno, decidi começar a viver”, que segundo os astros Saturno demora entre 28 a 29 anos para dar uma volta no sol e seria o momento em que as pessoas começam a “amadurecer”.

Enfim!

Não vi Saturno voltar porque estava emocionalmente fudida, saindo de uma relação em que mais uma vez havia sido traída pelo meu companheiro, mais uma vez voltava a me questionar o que havia feito de errado, o Saturno retornou me dizendo que eu não era suficiente, me fazendo questionar o porquê era tão difícil se relacionar comigo.

Pausa para agradecer a Thiago por naquele momento ter me dito que o problema não era eu, obrigada você é o melhor Gru que conheço. ^^

Lidar com a tão famosa era balzaquiana não me atingiu porque eu não tava nem olhando para ela, eu queria sobreviver, me reerguer da vergonha que foi mais aquela relação falida, que eu ainda tentei manter mesmo sob todas as perspectivas do que eu já sabia não estar certo, acreditando que aquela poderia ser a minha mais segura e correta garantia de felicidade.

Então chegou os 29, passei pelos 30 e recomecei a viver talvez aos 31 e de lá para cá mudou tanta coisa, foi um caldo tão bem tomado que eu levantei tirando areia do biquíni e me preparando para retomar quando a maré baixasse de novo.

Eu sei e acompanho o quanto é difícil envelhecer para as mulheres, rola as cobranças pessoais dos planos que não saíram como queria, ai vem a cobrança normalmente de familiares perguntando e ai “cadê o namorado(a)/vai casar quando/e a criança”, na área profissional se você não se realizou a chance de recomeço acaba com um “se enterre infeliz naquela profissão”, o corpo passa a responder de formas diferentes, os cabelos podem ficar brancos...

Pausa para fazer um importante apelo, se você tem uma amiga (o) que está começando a ganhar seus primeiros fios brancos, eu vou te contar um segredo ela/ele também está vendo, não precisa que você com expressões de espanto fale coisas como “nossa você está com muitos cabelos brancos/você não pretende pintar/você se incomoda”. Porque muito provável esses cabelos brancos já foram notados, se ela não teve incomodo talvez a sua pergunta a faça ter e o mais importante, não é da sua conta o corpo do outro. Passe bem! Ahhh, e a aquela piada de que “mulheres não envelhecem, ficam loiras”, não, pare agora.

Se você é uma mulher que está chegando aos 30 anos, xô te contar, é ótimo viver. Se você assim como eu já passou dos 30, mulher tá maravilhosa a vida né!? Se você está num relacionamento fudido porque está se aproximando dos 30 e acha que depois dali ficará impossível conseguir uma relação que lhe permita ter uma cria, repense isso, estou aqui (no facebook ou no instagram) caso queria conversar sobre isso.

 

Ps¹. Sobre a vida maravilhosa falada acima é fora a situação anual do COVID-19, não sou doida.

Ps². Fiquem em casa!

 

 

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domingo, 29 de março de 2020




Vanessa da Mata canta “hoje é meu aniversário, quero só notícia boa”, ahhh Vanessa! Mas enfim, esse mês foi seu aniversário e uns dias após a data, quando nos encontramos por acaso e lhe parabenizei você me indagou o porquê dos parabéns! HAHAHAHAHAHAHA, aquele dia você me fez rir e sem querer me poupou gastar 4 reais num churros.

Sempre que estou com alguém que não lhe conhece contando um causo nosso, eu começo dizendo “um dos meus melhores amigos...”, que sorte a minha ter sua amizade. Inclusive, essa carta/cartão de aniversário vai ser pública, mas desde o ano passado quando combinamos que iríamos voltar a trocar cartão de aniversário, fato que ainda não voltamos a cumprir - que bom que me antecipei - venha pegar o seu ao vivo, a cores e publicado!  

Nos conhecemos em 2004, num cursinho pré-vestibular, eu ainda era “rebelde”, muita roupa preta descombinante e umas calcas jeans ou taktel cortadas no joelho, que bom que moda nunca foi nosso critério de amizade. Lembro-me de empolgada perguntar qual curso você pretendia fazer, serelepe com toda a novidade, você muito fechado disse que jornalismo, aumentei minha animação e devolve com um “eu também”.

Thiago passou todo aquele ano me provando o quanto era genial, escrevia bem, fazia charge e era acidamente irônico na medida certa. Ele curtia Legião Urbana, a mãe dele faz uma das melhores lasanhas do mundo e me recordo até hoje de um show de rock numa laje que me levou, sempre fez o máximo para me incluir nas suas programações, mesmo dizendo incessantemente que estava no cursinho para estudar, que ele já tinha amigos suficientes.

Em certo tempo, quando nossa amizade já havia passado dos muros do cursinho, estávamos juntos num baba, eu sempre muito desenvolta sem querer ajudei uma colega a torcer o dedo, o que a fez colocar gesso no pé, fato que ele jamais deixaria passar em vão, tirou tanto sarro que fiquei chateada. Honestamente não lembro quem deixou de falar com quem, mas passamos um tempo numa guerra fria idiota, andávamos com a mesma galera, ainda nos sentávamos juntos, mas não nos falávamos mais.

Os amigos começaram a nos questionar porque não nos falávamos mais e muito adulta disse “porque ele não fala comigo”, resposta que se não me engano você também deu. Éramos jovens e idiotas, mas ali eu entendi que já éramos amigos. E fizemos as pazes, como duas crianças grandes que éramos (Pokémons evoluídos apesar dele sair numa van caçando Pokémon e deu ainda ser a doida do algodão doce), ele me devolveu um caderno com o desenho de uma boneca e uma música da Legião Urbana, música está que ouvi quando decidir escrever essa carta.

Eu posso passar toda uma vida tecendo elogios, contanto histórias ou relembrando sua sensibilidade, como por exemplo, quando te encontrei no dia do falecimento da minha avó e como você me acalmou cedendo seu tempo naquele dia ou quando eu perdi um voo na minha primeira semana de trabalho, te liguei soluçando do aeroporto e você me ouviu por uns 20min, além de passar toda aquela viagem monitorando se eu já estava bem e se estava correndo tudo bem.

É isso, que sorte do caralho a minha vei, não sei como foi o 2004 das pessoas, só os deuses sabem como será o nosso 2020, mas eu tenho certeza que tenho um dos melhores e mais generoso amigo do universo. Obrigada por regar comigo a nossa amizade, obrigada por me dizer que eu não sou difícil após meu namoro afundar, obrigada por me mandar fotos ridículas do seu gato na coleira, obrigada por abrir as portas da sua casa e da sua vida para que eu lhe veja crescer.

Texto escrito após ouvir Sereníssima (1991) e Vinte e Nove (1993) da Legião Urbana

domingo, 22 de março de 2020



Oi pessoal, tudo bem com vocês? Como estão as coisas?

Essas duas frases tem sido ditas por mim num looping quase que diário, com amigos próximos ou distantes, é um tempo estranho, como não seria né!

Mas vamos ao motivo de estarmos aqui hoje - que é relativo já que a internet é quase eterna, enfim, mas estamos -, há algumas semanas tenho pensado em retomar a escrita nesse blog, eu sempre escrevi, sempre tive diários a vida todinha, mas quando a escrita também se tornou uma forma de pagar boletos as coisas passaram a ter outra perspectiva.

Escrever quando se sente algo ou até mesmo para registrar um acontecimento como em diários remete a não obrigação, traz a despreocupação dessa escrita poder ou não existir, é uma combinação sua com você mesmo. A partir do momento que você começa a escrever e a produzir conteúdo escrito seja para sites, redes sociais e por ai vai, mais do que descrever o que se sente você, precisa “descrever” também o que não se sente e ai mermã, a coisa muda e muito de figura.

Não me arrependo de trabalhar com a escrita, ainda é uma das minhas enormes paixões na vida, mas tem dias que essa paixão fica em casa e você precisa retorcer a sua existência para produzir releases, posts bem humorados em redes sociais ou até produzir reportagens com temáticas nem de longe antes passadas na sua vida. É mágica essa variação de coisas, claro que é, tem dias que a gente não consegue nem dizer nosso nome completo, tem também.

A escrita assim como em qualquer outra arte, ela é doação, na faculdade na nossa primeira experiência escrevendo para o Jornal da Facom me recordo do sofrimento ao reduzir os caracteres daquele texto que foi um enorme parto. O que quero dizer com isso, que muitas das oscilações desse blog se devem ao meu desencontro com o jornalismo, com as fases desgostosas que tivemos, com outras paixões sendo concebidas e experienciadas.

Mas então porque esse texto nasceu? Para dizer que mesmo antes desse isolamento social “presencial”, já vinha ensaiando um retorno a minha escrita por paixão. O que estive pensando há algumas semanas era em escrever textos num formato de cartas, fórmula com exatamente zero de novidades, mas que percebo ser a minha fase na vida. Minha gente.. tem uns florais e uma abertura espiritual fazendo estrago neste ser, isso é assunto para uma das cartas.

Não sei se as pessoas irão me acompanhar, contudo, essa escrita antes de qualquer coisa é para alimentar uma paixão que após turbulência retorna como um amor maduro, que decidiu se reinventar e coexistir independente das tempestades que estão por vir. Amigos se preparem, talvez eu me declare de forma melosamente não característica.

Texto escrito ouvindo Acabou Chorare – Novos Baianos -1972

terça-feira, 2 de julho de 2019

AMOR - Abraçar o Medo do Outro e Rir


Eles estavam deitados no quarto, quando ela desatou a rir descontroladamente após repetirem a mesma “piada de casal”, era quase uma encenação que ambos já sabiam como terminaria, mas insistiam em repetir despreocupadamente. Eu estava na sala e também sorri ao ouvir o sorriso dela, é de mostrar os dentes ouvir o riso da cumplicidade.

No mesmo momento lembrei de você, de passar a mão pelo seu nariz e de você massagear minhas costas como quem tempera desajustadamente um bife. A solidão não é uma escolha, é uma condição estabelecida de autoconhecimento, que às vezes cansa e às vezes revigora, nos últimos tempos nem tenho chamado de solidão, optei por estar em liberdade de “corrida”.

Ando ou me arrasto confusamente por ai, mas a cada riso que ouço dela aqui da sala, entendo!

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Para você, sobre ela no mundo


Ele estava certo, após algumas semanas pensando sobre coisas que gostaria de ter lhe dito, ao olhar pra você ela não conseguiu falar o que havia ensaiado e o que achava correto ser dito. Ficou com medo de estragar o momento, de parecer ridícula, de ficar parecendo louca, de despirocar por uma relação que na verdade, nem via como tal. Passou a se questionar muito se isso era um incômodo, se ela estava bem com o rumo das coisas, se de fato havia se tornado essa pessoa que consegue lidar tranquilamente com uma relação não estabelecida. É óbvio que nenhum namoro ou qualquer outro tipo de relacionamento já vivido começou do nada, um olhou para o outro e disse "vamos namorar", ainda não habitava um seriado da Netflix, mas tudo a fazia questionar os entraves, as dúvidas e incertezas. E não eram dúvidas de será que sou suficiente, será que ele gosta de mim ou será que vai dá certo. O tempo inteiro as perguntas giravam em torno do "quem é você?", "Quem é essa pessoa que eu venho encarando no espelho e colocado a prova todo dia."

Tem dias que ela se questiona se aquilo é suficiente, mas já sabemos a resposta, não é, ela quer e gosta de mais, contudo, esse mais é exatamente o quê? E esse mais viria exatamente de quem? É de você, sério que é de você? Há um tempo decidiu que não se colocaria em jogo por relação nenhuma, essa foi/é seu eu racional a todo vapor. Desde então, vem se respeitando, seguindo a risca cada plano não traçado, porque convenhamos é preciso organização até no caos.

Achou que estava meio perdida, mas então percebeu que o que queria ter lhe dito e não teve coragem foi "e aí véi, o que é que tá rolando mesmo?" Não falava de namoro, casamento e casinha na praia, seria legal, mas não é isso. O que é que rola aí dentro de você, ela é do tipo espelho, reproduz o que vê, tipo criança aprendendo como comer. Você parece um baú, mas quase sempre trancado com a chave perdida, e após escrever essa frase começou a acreditar que estava falando de si mesma, será que você a lê assim?

Então, para ela "tá bom", mesmo sem compreender o que é esse "bom", muitas vezes se olhava e na verdade não era ela, estava com medo de lhe apresentar uma cópia fajuta de alguém que já foi maravilhosa, mas que hoje não é mais, vai saber! Completando a frase que iniciava o texto, sim, somos uma pessoa que fala melhor escrevendo, milimetricamente ensaiada com vírgulas e acentos nas proparoxítonas (nunca imaginei fazer um texto com essa analogia, que esnobe HAHAHAHA), será que ainda tenho chance!?


terça-feira, 5 de dezembro de 2017

“Garotas bonitas não comem” - Milly, 11 anos


No último final de semana vi o relato de uma garota de 11 anos, que cometeu suicídio há 2 anos em Dublin – capital da Irlanda -  por estar infeliz com o próprio corpo e umas das coisas que mais me marcou foi que ela se cortou e escreveu com o sangue: “Garotas bonitas não comem”.

Tentei me lembrar um pouco como era ser uma garota de 11 anos, na periferia da minha cidade. Eu tava na 5ª série, feliz por estar saindo do meu antigo colégio onde tinha um garoto que me ameaçava na saída da escola, quase todos os dias (foi uma enorme felicidade quando descobri que ele repetiria o ano e que eu mudaria de escola). Era também um momento de “liberdade” porque iria para um colégio mais longe de casa, com um monte de gente nova. Mas eu não consigo me lembrar de nada referente ao meu corpo, nada que tenha me marcado a ponto de me fazer lembrar duas décadas depois.

Só que há algumas semanas, fui à praia com amigos e apesar de ser o meu lugar preferido no mundo, num espaço que eu amo, o meu corpo me incomodou. Pense que apesar de ser uma praia quase deserta, eu queria esconder o meu corpo a todo momento. Me senti tão vulnerável que fui desabafar com amigas e a minha fala consistia em “tô incomodada com o meu corpo, fui a praia de biquíni e fiquei constrangida, me senti até um tico feia”. Vale ressaltar que quando digo que fui de biquíni é porque sempre existia um short, tomava banho com ele e tudo, nunca foi uma questão, mas decidi arriscar, buscar novas questões sobre mim e o meu corpo, e esse foi um passo que achei necessário, até “arriscado”.

E agora eu te pergunto, se eu que tenho plena consciência que somos naturalmente diferentes e tudo bem. Se acredito que ninguém jamais será igual a ninguém e tudo bem. Se tento nunca me comparar a pessoas porque somos diferentes e tudo bem. Se prego para mim e externalizo para o mundo que ninguém é perfeito e ok, eu fraquejei por conta de um biquíni na praia.


Não sei nem como terminar ou prosseguir nesse texto, só consigo questionar que mundo é esse que estamos educando nossas crianças. Que vida saudável e padrões estamos implementando na vida das nossas crianças, que fôrma de bolo é essa que estamos jogando os corpos das meninas, pois nenhuma delas cabe, nem as magrinhas porque sobra espaço nem as gordinhas porque elas transbordam

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

A autossabotagem me quebrou



Durante algumas muitas horas do meu dia, duvido da minha capacidade intelectual enquanto produtora de conhecimento, por mais que amigxs, namorados, ex-namorados, já tenham dito o quanto sou inteligente e sei de coisas supérfluas e/ou importantes que poucos saibam, não adianta, nada disso me tira da cabeça que sou uma fraude. E olha que bem lá no fundo não acho, mas sinto.

Sempre acho que tem alguém que escreve melhor, que teve as melhores ideias, melhores atitudes, leu mais livros que jamais terei tempo de ler nessa vida. Resumindo, é uma autossabotagem, que somente a análise poderá me ajudar, admitir esse fato já me trouxe 1% de paz de espírito.

E agora chegamos no meu ponto reflexivo, até que ponto isso tem a ver com a minha classe social, o gênero que carrego, o bairro que me criei, a cultura que rege meu corpo e minhas escolhas. O que quero dizer é, o que ser mulher tem com isso?

TUDO!


Sinto que preciso provar duas, três vezes mais minha capacidade, reforçar meu ponto de vista, me fazer ouvida e refutar qualquer situação em que tentam me silenciar, isso tem acabado comigo, essa eterna vigilância me adoeceu. E agora tô buscando ajuda para entender.