segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Uma carta para minha musa, a minha irmã



 
Crédito: Ilustração retirada do Instagram da Mary Angela (@maryangelaalves

Hoje, mais do que em qualquer época da minha vida entendo a frase “representatividade importa” e só com o tempo entendemos o quanto importa. Assim como eu, minha irmã é negra, cabelos pretos e crespos, não somos nada parecidas fisicamente, olhos em proporções distintas, a magreza dela é infinita, (a diferentona do manequim 34), e no tamanho dos cabelos.

Diferente de mim que sai muito mais a família quase índia do meu pai, minha irmã roubou para si toda a negritude dos meus avós maternos. Desde sempre seu cabelo foi o mais crespo, nossos penteados não casavam e por muita insistência, segundo minha mãe “uma imensa vontade de ver os cabelos voarem”, lá se foram elas ceder à química. Não lembro ao certo a data, mas acho que minha irmã devia ter uns 10 anos, quando ela utilizou a primeira química, era o relaxante infantil, o Toin. 

Faz quase 13 anos que ela recorre a relaxamentos, soluções mágicas e salões de beleza. Acreditem, ela chegou a ficar quase 9 meses sem química para puder transitar de um permanente para o outro, na época, o auge do sucesso era o Beleza Natural, primeiro salão que afirmava se dedicar a tratar cabelos crespos, nunca entendi bem esse termo tratar, até porque cabelo crespo nunca foi doença. 

Será? Olha a representatividade!!

Ela chegou até aderir as tranças, mas já bem no final da sua transição capilar. E com isso, chegamos a minha questão principal, que foi todo o processo de big chop que ela passou e ainda vem passando. Cansada das tranças e disposta a deixar seu cabelo finalmente voltar a ser “natural”, minha pequena musa decidiu cortar o cabelo num novo salão, para tirar todos os produtos. Um Joãozinho seria necessário, lhe faltou coragem, resolveu tirar míseros três dedos, assim que chegou em casa odiou o resultado, se arrependeu, o cabelo não estava uniforme, não aceitava qualquer tipo de produto para cabelos crespos, a raiz era água e as pontas óleo.

Passaram-se duas semanas, num repente retornou ao salão e voltou pra casa livre, leve, solta, sem química e com dois dedos de cabelo. Adorei, achei corajoso e ela ficou em casa imaginando os enormes brincos que iria usar para valorizar o seu Joãozinho. Dias depois, me contou que haviam perguntado para seu namorado se ela estava doente, se tinha algum problema sério, não entendiam o exagerado corte e era perceptível que apesar da fortaleza de 23 anos, aquele comentário havia abalado.

Fui efusiva em dizer e repetir por dias seguidos o quanto ela estava linda, como o corte tinha favorecido e como as coisas seriam mais fáceis. Temos uma diferença significativa de idade (não vamos entrar em números, ok!), temos personalidades próximas em muitos quesitos. Ainda assim demorou para que a garota Danielle entendesse que quando sua irmã lhe copiava era um elogio e que ela me tratava como referência. Quando adolescente demoramos tanto para criar uma personalidade independente que tudo acaba sendo um motivo de embate e a gente brigava muito, quem bom que passou.

Amo a minha irmã, ela me inspira, ela é minha musa da força e faz um barraco como ninguém. Meninas mulheres da pele preta e cabelos crespos, obrigada por existirem em nossas vidas, por compartilharem suas experiências e permitir que a minha MUSA ENGENHEIRA se libertasse de tabus que ela sequer sabia por que decidiu seguir. Obrigada, hoje ela voa por inteiro e não só os seus cabelos!

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