Crédito: Ilustração retirada do Instagram da Mary Angela (@maryangelaalves)
Hoje, mais do que em qualquer
época da minha vida entendo a frase “representatividade importa” e só com o
tempo entendemos o quanto importa. Assim como eu, minha irmã é negra, cabelos
pretos e crespos, não somos nada parecidas fisicamente, olhos em proporções distintas,
a magreza dela é infinita, (a diferentona do manequim 34), e no tamanho dos
cabelos.
Diferente de mim que sai muito
mais a família quase índia do meu pai, minha irmã roubou para si toda a
negritude dos meus avós maternos. Desde sempre seu cabelo foi o mais crespo,
nossos penteados não casavam e por muita insistência, segundo minha mãe “uma
imensa vontade de ver os cabelos voarem”, lá se foram elas ceder à química. Não
lembro ao certo a data, mas acho que minha irmã devia ter uns 10 anos, quando
ela utilizou a primeira química, era o relaxante infantil, o Toin.
Faz quase 13 anos que ela recorre
a relaxamentos, soluções mágicas e salões de beleza. Acreditem, ela chegou a
ficar quase 9 meses sem química para puder transitar de um permanente para o
outro, na época, o auge do sucesso era o Beleza Natural, primeiro salão que
afirmava se dedicar a tratar cabelos crespos, nunca entendi bem esse termo
tratar, até porque cabelo crespo nunca foi doença.
Será? Olha a representatividade!!
Ela chegou até aderir as tranças,
mas já bem no final da sua transição capilar. E com isso, chegamos a minha
questão principal, que foi todo o processo de big chop que ela passou e
ainda vem passando. Cansada das tranças e disposta a deixar seu cabelo
finalmente voltar a ser “natural”, minha pequena musa decidiu cortar o cabelo num
novo salão, para tirar todos os produtos. Um Joãozinho seria necessário, lhe
faltou coragem, resolveu tirar míseros três dedos, assim que chegou em casa
odiou o resultado, se arrependeu, o cabelo não estava uniforme, não aceitava
qualquer tipo de produto para cabelos crespos, a raiz era água e as pontas óleo.
Passaram-se duas semanas, num
repente retornou ao salão e voltou pra casa livre, leve, solta, sem química e
com dois dedos de cabelo. Adorei, achei corajoso e ela ficou em casa imaginando
os enormes brincos que iria usar para valorizar o seu Joãozinho. Dias depois, me
contou que haviam perguntado para seu namorado se ela estava doente, se tinha
algum problema sério, não entendiam o exagerado corte e era perceptível que
apesar da fortaleza de 23 anos, aquele comentário havia abalado.
Fui efusiva em dizer e repetir
por dias seguidos o quanto ela estava linda, como o corte tinha favorecido e
como as coisas seriam mais fáceis. Temos uma diferença significativa de idade (não
vamos entrar em números, ok!), temos personalidades próximas em muitos quesitos.
Ainda assim demorou para que a garota Danielle entendesse que quando sua irmã
lhe copiava era um elogio e que ela me tratava como referência. Quando adolescente
demoramos tanto para criar uma personalidade independente que tudo acaba sendo
um motivo de embate e a gente brigava muito, quem bom que passou.
Amo a minha irmã, ela me inspira,
ela é minha musa da força e faz um barraco como ninguém. Meninas mulheres da
pele preta e cabelos crespos, obrigada por existirem em nossas vidas, por
compartilharem suas experiências e permitir que a minha MUSA ENGENHEIRA se
libertasse de tabus que ela sequer sabia por que decidiu seguir. Obrigada, hoje
ela voa por inteiro e não só os seus cabelos!

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